terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

SABEDORIA DAS CORUJAS

Acordo com a nítida sensação de que comecei a sonhar. Eventos futuros comprovam minhas desconfianças – somente o absurdo é capaz de me não manter entediado nesses tempos de guerra.

Uma aniversariante fala ao telefone, tenta explicar em uma conference call a todos como chegar ao local da festa. Sei que faz aniversário pelo chapéu cônico e cômico sobre sua cabeça. A aniversariante pede ajuda, e me ofereço para dirigir até o local.

Assim que chego, entrego o veículo laranja ao manobrista, que me retribui com um papel de valet contendo em vez de número, o dizer “é nóis”, seguido pelo número 11. Olho para a comanda e, ao me dar conta do número, retruco: “essa é a comanda de quem não bebe”, ao que ele contra-argumenta “é melhor assim, pois seu carro vai ter que te levar embora, fechamos às 11”. Nesse exato momento me enervo, mas sem demonstrar, e digo “isso é problema meu e dele. Arrumo uma mulher que o conduza, a minha”.

O manobrista então sorri, cede e me concede a comanda que permite ao portador beber, mas não sem fazer ressalva: “vê se maneira, tá?”. Sorrio por fora e por dentro, mas não digo “tá”. Nesse mesmo instante, um puta de um barulho de metal contra metal. Filho da puta, um maloqueiro bateu no meu carro preto. De moto. Ele levanta todo Kramer e tenta amenizar a situação:

- Calma, amigo, não aconteceu nada. Veja só, só fodeu a traseira. Vai custar algo entre R$ 800,00 e perda total. Em todo caso, está aqui meu telefone caso queira bater um papo. Grana não vou ter...

Não sei se admirado, mas fatalmente perplexo, decido entrar no bar, que é um restaurante. Peço mesa para seis, e assim que me sento, chegam 5 castores – pais e filhos. Todos os pés da mesa são de troncos pesados de madeira, de forma que me sinto preso, levemente pressionado contra a parede.

Me perguntam onde fica o toilette e não esperam resposta. A comida chega. Como orecchiette amatriciana, a mamãe castor come salada, uma família de grilos come muito e o restante dos castores rói os pés da mesa. Toda a cena se transforma sem pedir licença e me vejo em meio a um culto judaico com meu prato na mão. Meu prato amatriciana, com pancetta. Irônico, vai?!

Trata-se do culto do “Sarro ao Cristianismo”. Não vou entrar em detalhes, mas te garanto que eu, que não sou nem uma coisa, nem outra, ainda assim me senti na obrigação de reprovar e pedir pra fazer mais. Passei um briefing para alguém de minha confiança explicando o porquê da minha desaprovação.

Ando pelos corredores da Sinagoga em direção à Slot Machine. Percebo que algum otário deixou um crédito de 11. Ou um otário, ou deus [deus?] tentando fazer com que acredite na sua existência. Ganho, na primeira puxada da alavanca, e meu crédito sobe para 77. É, cara, você vai ter que se esforçar mais se quiser fazer com que eu acredite. Está certo que de 0 para 77 o crescimento percentual é simplesmente infinito, mas em números absolutos isso não diz muita coisa.

Em uma tela que transmite a câmera de segurança, vejo um irmão e uma mãe que não são senão os meus discutindo sobre a possibilidade de meu comportamento contestador ser reação à medicação. Fico puto por dentro, porque estou tentando justamente contestar menos, agir mais, mas “isso é problema meu”.

Continuo pelo corredor a fim de sacar meus créditos divinos. Não são, mas vou chamá-los assim. Para fazer o resgate, o grave atendente do guichê solicita meu Amex e pede para que digite seu número de cabeça na máquina. Erro uma vez, duas e me prendem sob acusação de fraude. Eu, que não sou réu primário nem nada, já dou um jeito de me transformar em uma criança negra com um pai negro. Disfarce bom: menor de idade, acompanhado, não bate com a descrição do criminoso. Genial esse meu subconsciente.

De toda forma, nos mandam aguardar na chuva. Já estou sozinho de novo. Engraçado que quando mandam esperar na chuva, não chove; assim que alcanço o pátio, no entanto, chove torrencialmente. Todos os judeus correm alucinadamente para se proteger, entram em seus carros e zarpam. A cena é bem, mas bem similar a uma do Último Portal. Aliás, aquela diaba é misteriosa, hein?!

Caminho desolado pela chuva e já sou eu novamente, sem risco ou medo de detenção, e deixo para trás uma irmã paraplégica. Caminho por ruas e viadutos chorando – na impossibilidade de correr, a chuva passa de segunda a primeira melhor alternativa para disfarçar lágrimas.

Para atravessar um viaduto, percebo que existe um atalho de terra fofa, com uma espécie de folhagem macia. Cães gigantes e calmos me observam. Apesar de calmos, não se engane, são igualmente amedrontadores, e na tentativa de não exalar o cheiro do medo, rolo na terra fofa, quase caio num precipício antes de me segurar em algo que não conseguiria descrever em mil palavras, afinal uma basta: cipó. Passa um menino sujo, o mesmo menino em que me havia transformado parágrafos atrás, e diz que para ele, esses caminhos mais curtos são fáceis. Os cachorros lhe sorriem. Solto do cipó.

Acordo em uma cama muito louca do séc. XVII ou de quando seja, mas é pomposa, bela e inusitada. Em lugar da cabeceira, uma cortina suave, mais como um véu, guarda o berço de um bebê. Pego ele no colo e vejo que sou eu. Todas as manhãs, sou o primeiro a vê-lo. O quarto também tem mais tamanho de Apartamentos de Napoleão que propriamente um quarto de dormir pós moderno. Me coloco no berço novamente, com cuidado, e caminho até a varanda.

Lá, me espera uma mulher loira muito esguia e sorridente. Apesar dos olhos suaves, tenho certeza de que não é flor que se cheire, e por isso lembro que por isso gosto dela. Sem que digamos palavras, um pássaro cinza claro voa para dentro da varanda. Ele é bem redondinho, fofo, parece que suas penas ainda são penugem. Parece um filhote. Ficamos sem palavras, mas dizemos muito ao trocar olhares.

Antes que nos volte a fala, toda uma revoada de pássaros similares inunda a enorme varanda. Eles passeiam desajeitada e divertidamente pelo chão e parapeito. Pego na mão o primeiro dos visitantes que chegou. Um cachorro late, e o filhote de pássaro imita absolutamente igual. São filhotes de coruja, e não farão por menos ao mostrar sua tão precoce sabedoria.

Depois de latir, a corujinha conversa comigo. Olho para a mulher loira, igualmente perplexa. Conversamos rapidamente sobre o sentido da vida, algo que não poderia explicar em mil palavras e que se passou em milissegundos e que se esvaiu em uma fração disso. A corujinha cinza claro, bico e garras de rapina pretas, toda de penugem e chamego em minhas mãos. Digo que preciso que ela fique, ou ao menos gostaria. Ela retruca:

- Você certamente quer, mas seguramente não precisa. Segure a mente e não encontrará resposta mais precisa.

A mulher loira me observa, sorri ternamente, faz um gesto com os braços que não assusta, apenas conduz à debandada de todas as corujinhas. A que estava em minhas mãos é a última a partir. A mulher se volta para mim e então ganha voz:

- Você sabe que elas serão mais felizes soltas, apenas não quer abrir mão.

Sua mão fecha sobre a minha, entramos novamente no quarto e apesar do sonho acabar, creio que estava indo cuidar do bebê.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

LIMPANDO O QUARTO

Tudo começa em um julgamento pela guarda de uma criança. O Tribunal não tem nada de tradicional, e por aí já vemos que se trata de um sonho – em vez de pompa e Madeira entalhada, metal e lycra.

Estou sentado em um dos assentos desses que sim, são tradicionais em repartições públicas, desses que parecem um monte de cadeiras, mas são na verdade presas a uma única base, o que faz de cada uma delas parte de um banco. O ruim disso é determinar o tamanho médio daqueles que se vão por ali sentar, uma vez que a ergonomia deve ser universal nesses casos. Essa frase me lembra dois momentos escolares: bem jovem, com as carteiras cujos assentos eram fixos e a distância entre eles e a mesa, imutável; e menos jovem, mas ainda muito jovem para ser adulto, na escola de design, onde aulas de ergonomia eram lecionadas para desconfortados estudantes naquelas pequenas carteiras sobre as quais não cabem mais que um post-it e um lápis já meio gasto.

Bem, estou sentado nesse assento, e à minha esquerda, dois assentos distante, descansa uma tensa mulher. Deduzo ser a mãe. Apesar de agora não me lembrar nada sobre ela, lembro que era conhecida, jovem e se não exatamente bela, ainda tinha boas chances de encontrar um marido. À minha direita, a mesa da juíza em metal e lycra [antes que se empolgue, falo da mesa, não da juíza].

O meirinho chama alto a testemunha principal do caso: “Daniel!”. O clima é grave, mas como o sonho é meu, naturalmente sei que não se trata de mim. E justamente por isso, não me incomodo – muito pelo contrário – e sim me animo em fazer uma inevitável piada: “Bem, se fazes tanta questão de um Daniel, tendes um aqui, mas receio que não te sirva para muito”. A mulher me olha indiferente, o meirinho com raiva, um pai com desdém, a juíza com seriedade, a criança ruiva com um sorriso. Me sinto como no episódio de Seinfeld quando Jerry e George vão para L.A. e o comediante perde no hotel o guardanapo com uma ideia de piada – não sei se contei mal como ele o fez, ou se realmente o que me lembro é sem graça, assim como se passa com ele. Mas bem, sigo o mestre.

Te garanto que o tal Daniel chega no momento exato antes que eu derreta de tédio. Ele entra seguro, elegante. Tenho certeza de que já namorou a Jennifer Aninston. Quisera eu ser esse Daniel. Se bem que esse Daniel de fato não tem esse nome, e de fato não importa sabê-lo agora. Aliás, como ator, ele está mais que acostumado a ser chamado de outras coisas. Daniel ou não, ele namorou a Jennifer Aninston e entrou no recinto, palmas! Ordem.

O pai da criança está ainda mais à esquerda que a mãe, não há advogados. A ruivinha tenta contar uma história em que ninguém presta atenção. Percebo sua angústia quando começa a se enrolar e enfiar pela lycra prateada que forma a frente da mesa. Ninguém dá a minima para a criança, é como se ela não estivesse ali. Sou o único a ver a cena, e como espectador sou o único que não pode fazer coisa alguma. O pai olha pra mim repreensivo, e para ela ainda mais.

Percebo que é melhor me retirar das ala por alguns instantes. Ao sair, vejo na sala contígua uma reconstituição em pleno curso, uma criança de pele escura segura uma submetralhadora mais pesada que seu corpo e acua a todos. Antes de largá-la e dizer “foi assim, e então matou todos”, confesso que acreditava na capacidade do garoto em render todos ali. Mas tratava simplesmente dele contando como presenciara uma chacina ou coisa assim, nada demais. Até sua mãe estava presente e consentia com a cabeça.

Isso tudo me parecia normal, inclusive e especialmente o fato de que todos falavam espanhol. Bem, como compreendo e não preciso dizer muito, tudo bem.

Dou uma volta pelo local e em todas as salas acontece algo igualmente estranho e castellano. Sempre alguma acusação, tramoia, chame como queira, mas nunca era bonito aos olhos de quem aprecia apenas e tão somente arte clássica.

De repente, num corte seco seguro com a mão direita uma caneta de nankin e tenho sobre a mesa um autorretrato feito em pontilhismo. A obra está incompleta, me parecendo que completá-la é justamente o que me cabe naquele momento. Paro por um instante para imaginar como seria a engenhoca ou a fraude que haveria armado para conseguir fazer um autorretrato de costas. Explico: no desenho, estou naquele enquadramento clássico do contraplano, onde se pode ver meu ombro, minha nuca, orelha direita, um pouco do olho e sobrancelha e, claro, nariz. Percebo que estou mais cabeludo no desenho, e de barba longa. Logo, de duas uma: ou o desenho é antigo e preciso terminar de cabeça, ou não sou eu, ou cortei o cabelo recentemente, o que explicaria a engenhoca para me ver desse ângulo: um simples espelho fixo e outro móvel. Não, não tem um erro de matemática ou o que seja aqui. Isso é problema meu.

O espaço ainda não coberto por pontos ocupa a exata posição onde estaria um livro em minhas mãos, mas nessa região não há absolutamente nenhum ponto. Encosto o bico da caneta sobre o papel mais inclinado do que deveria, e apesar de rapidamente preencher todo o espaço, o tamanho, espessura e angulação dos pontos não combina com o resto do desenho, que está arruinado.

Penso que a única forma de consertar é fazendo um livro completamente negro e um óculos. Penso que o livro que poderia ter em mãos somente poderia ser negro, e somente poderia ser compreendido por intelectuais. No entanto, o livro negro em contraste ao pontilhismo chamaria atenção demais, o que poderia ou não ser positivo. Mas não havia escolha a não ser isso ou renunciar. Isso ou começar de novo, o que não parece de todo mal.

Levanto a tampa da escrivaninha sobre a qual repousam um monte de brinquedos coloridos certamente não da minha época. Lá dentro, muita coisa que me lembra dos tempos de escola. Na verdade, todas elas: livros, cadernos, tudo. Tudo empoeirado, largado. Saem também fotos de celebridades femininas dos anos 80 e 90 vestidas de noiva, bem démodé. Lembro de nunca tê-las colocado ali, mas ali estavam. Observo o espaço interior da escrivaninha e penso que com uma boa limpeza, algumas coisas podem ser colecionadas, e o espaço aproveitado.

Olho para cima enquanto arranco a tampa da mesa, e vejo a prateleira de Madeira rústica e vagabunda, sem acabamento. Vejo a falha na textura claramente, bem de perto. Sobre ela, coleções de livros que não me serviriam para nada mais que uns recortes, digitalizações e colagens. Aliás, abro um outro armário e encontro alguns periféricos antigos, amarelados e empoeirados. Scanner, impressora, zip drive, junto com mais um monte de entulho. Muito pó e a sensação de que não vai ter fim.

Me volto para o quarto, e todo ele está do mesmo jeito: coisas, sacolas, caixas, tudo jogado. Se algo ali presta, precisaremos de muita paciência para encontrar. Livros infantis, periféricos antigos, poeira, sacolas, aaaaaaa! Quando começo a me irritar com a impossibilidade de fazer algo, toca a campainha e me surge uma necessidade absoluta de parar de brigar. Especialmente parar de brigar as brigas que já estão vencidas e, portanto, ao mesmo tempo e inevitavelmente, perdidas. Depende apenas do ponto de vista.

Creio que esse é o sonho mais Eminem quem já tive, se bem que não sei muito do cara.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

JE M’APPELLE JEAN-CLAUDE

“É preciso encontrar a forma perfeita para não deformar a fôrma que a personagem principal – e única – precisa ter. É precisamente a fórmula de um sucesso ou fracasso”. Assim falou o ego excêntrico do egocêntrico autor. Era preciso encontrar um ator.

Todos pareciam ouvir com atenção as delicadezas da rude forma de falar. Bem, as delicadezas estavam lá para quem as quisesse escutar; no entanto, pelos olhares, talvez apenas a forma de falar estivesse pela maioria sendo apreendida. Poucos pareciam de fato aprender algo do arrogante, mas frutífero discurso. Não obstante, haviam aqueles que pareciam compreender.

Forma e conteúdo: imprescindíveis, mas difíceis de conciliar. Eu mesmo havia pensado em uma forma incrível para descrever um sonho, este que ainda me faltava. Pois bem, o tive e deixei escorrer pelos cílios. Cá estou, sem forma nem conteúdo, contando a história de ego excêntrico entediado.
“Essa peça não é sobre minha pessoa, apesar de versar e prosear sobre mim. Trata da humanidade, que precisa ser representada no indivíduo a fim de extrair do particular, o todo”.

Aqueles que eram dispensáveis foram dispensados sem demora. Cá estamos sob o teto reformado de uma antiga casa restaurada, mas não remodelada. A casa decerto me foi dada por uma fatalidade. Sou grato por ela ter aterrissado antes da fatal idade me ter acometido. Cacófato? Sim ou não. Me torno o próprio autor, e todas as pessoas saem de cena, a não ser o canhoto e o destro.

Curioso o que noto mentalmente: o canhoto tem destrezas confiáveis, enquanto no destro não se pode confiar direito. Não obstante, falo com ambos.

“Quem por fatalidade sentar na primeira fila, é porque quer de perto ver a verdade, de que cor é a saudade, não será indiferente se o ator indecente não desempenhar decentemente o papel do descrente que quer acreditar. Não, nisso ninguém poderá”.

O canhoto toma notas, o destro as destrói. Falo como se fosse um disco preparado para nunca parar. Os olhos das fechaduras de um cômodo me observam sem parar. Voyeur eu, voyeur você. Projeção. O maior sádico é aquele que quer apanhar? Não consigo diferenciar o que falo do que penso, apesar de serem evidentemente duas coisas distintas. O fato falado não sobrepõe o fato pensado, ambos não substituem o fato vivido, é preciso precisão com o fato encenado. Em cena, tudo será decifrado!

Articulo sobre as opções de quem poderiam ser os atores ideais para a performance nada usual. Tenho certeza de que estou dormindo, e penso que se estivesse acordado e todas as coisas precisassem fazer sentido, e se todas as ambições do mundo pudessem ser sonhadas com um mínimo de chance de serem realizadas, acordado sonharia de olhos abertos ou vendados que Adrien Brody era o verdadeiro e perfeito nariz para o papel. Ahn?! Rá!

Mas como sei que estou sonhando, sei que as coisas não precisam necessariamente fazer algum grave sentido coerente aparente e consequente. Por isso, em vez de falar do pianista, olho bem na íris de uma nariguda maçaneta e percebo que ela guarda um quarto onde nunca entrei, mas onde certamente existe um cofre de cuja combinação nada sei, e cuja chave jamais avistei, e cujo conteúdo jamais sonhei. A cor da verdade é verde, a textura é madeira. O animal é coruja. O olho é de botão. Ah, maçaneta, você com esse nariz torto pra esquerda e essa cara ranzinza, só falta o chapéu pra ser um guarda real da Guarda Real. Será que o que guarda é real?

Não presto atenção em nada do que não me dizem, e me vem a frase à cabeça: Retroceder, nunca; render-se, jamais!

Imediatamente me vem a certeza de que é ele quem deve fazer o papel, afinal estou sonhando e nada disso precisa fazer sentido. A cena que me faz convencer os produtores é dele dançando no palco do programa de auditório junto à Gretchen, com uma camiseta pra dentro de uma calça jeans semi-bag, desbotada bem 80’s na cândida, plateia em polvorosa. Sua falta de noção e a surrealidade da fagulha de ideia o fazem ideal para uma improvável escolha. Esse monólogo já tem dono, e sou eu. Mas a personagem será interpretada por alguém de muita coragem e pouco bom senso: Jean-Claude Van Damme.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PEÇA À TERCEIRA PESSOA – UM MONÓLOGO EXTRAPSICOLÓGICO

[Uma pesada cortina de veludo alemão vermelho guarda o palco dos olhares do público. O clima de ansiedade e animosidade é necessário, e garantido por atrasos sistematicamente maiores a cada apresentação, até que se descubra a progressão utilizada, quando então deve-se pensar em outra forma de irritar a plateia. Ouvimos os passos secos de uma bota francesa de cromo alemão e sola de madeira, que cessam ao atingir a precisa metade do palco. Um spot de luz frontal acende ruidosamente sobre o orador, que reage abrupta, mas comedidamente até se adaptar à luz nos olhos e começar a falar na boca de cena, entre a cortina e o precipício que separa o ator da nervosa audiência.]

- Alunos e alunas aplicados/as sempre às exatas, até mesmo às biológicas, mas nunca às humanas. Isso tudo pode ser chamado démodé ou outro termo na nova escola, mas a história é da velha e os termos são esses. A velha, conhecida obsessão matemática aplicada à gramática.

O orador caminha pela boca de cena.

- Assim como menos com menos dá mais, mais com mais dá mais; apenas menos com mais – ou vice-versa – dá menos. Portanto, depois de aplicada essa micropílula de sabedoria popular, a pergunta de um milhão de dólares seria [Antes de selar o acordo, diga – é capaz de honrá-lo? Bem, meu rapaz, para sua sorte ou azar, não importa, pois não há tempo para a resposta!], retomando, a pergunta de um milhão de dólares seria: como não existem no mundo mais números positivos que negativos? Extende-se ao infinito e além, até onde ecoar, a questão.

O final dessa frase ecoa e reverbera gravemente. Uma lousa desce do teto pendurada por cordas.

- Ao passo que chegamos em três parágrafos ao cerne da questão, fato que não deve ser outra coisa que não coincidência, algo assim para apenas afirmar pela negação do contrário*. Não obstante, se não vamos aqui deixar à deriva os números, que a tese surja de acordo com o titulo. Pois bem, lá vai ou lá vem: a terceira pessoa do singular está sempre no extremo oposto do espectro de onda referente aos pronomes relativos quando comparada à terceira pessoa do plural; para cima ou para baixo e qual, isso depende de onde se firma o tripé do observador, variando ele e eles como inclusivos ou exclusivos, invariavelmente, e de certa forma até concomitante e inevitavelmente, incluindo nessa oposição a valência de cada um dos termos.

A seguinte frase é escrita pelo orador no quadro: 7r35 3’ m35m0 um núm3r0 m4’g1c0, s3 3ss3 73rm0 pod3 d3 f4t0 3x1571r.

[*Ideia para outra estória: um jovem rebelde, adolescente filho de pais bastante inteligentes, que decide se tatuar às escondidas pelo simples prazer do perigo, uma vez que seus pais são também bastante liberais, e escolhe um dizer bastante categórico e vermelho para pintar de preto a pele com “eu não me afirmo pela negação do contrário”. A trama se desenrola na frustração do pai ao não conseguir nenhuma de duas coisas: 1) compreender a razão do ocorrido; e 2) fazer com que o filho compreenda onde está a verdadeira inaceitabilidade do evento. Rever O Bebê de Rosemary. A criança pode se chamar Edgard, pô!]

- Sábio ou apenas paciente você que até aqui chegou, saiba que a primeira fase deste vestibular já passou, e servia apenas para despistar os caça-tesouros, descartar os idiotas e filtrar os verdadeiramente dignos. Se chegou até aqui, parabéns! Um Zé-Ninguém lhe confere o titulo de Doutor de Absolutamente Porra Nenhuma. Em reconhecimento ao empenho empregado, a verdadeira estória a seguir.

[O foco de luz se apaga ainda com o orador em riste, que veste regata preta cotelê corte italiano, boné trucker, um relógio de bolso dourado, calça jeans rasgada e a bota. Óculos de hastes douradas penduram-se sobre o nariz, equilibrando-se. Abrem-se as pesadas cortinas vermelhas de veludo alemão. Aura de Lynch no clube. Silêncio. Não há banda. Início Primeiro Ato.]

O orador se movimenta para trás. Cenário simples, minimalista, tábuas corridas e um banquinho de madeira rosa com três pés no exato centro do palco. Magicamente, se veste de outra maneira: calça branca feminina de cintura baixa, camisa xadrez em tons predominantes de verde e um velho All Star cheio de potencial explorado, cor de vinho seco, um Malbec bem específico. O spot não vem mais de frente, só que de cima, fazendo o orador praticamente não ser mais ele mesmo, mas seu próprio nariz. Sua barba cresceu. Acima do banquinho há um conjunto de cordas grossas de sisal, perfeitamente imóveis e perfiladas paralelamente à boca de cena, na mesma profundidade do baquinho. O orador não senta, mas se empoleira sobre ele, equilibrando-se com apenas um dos pés, o esquerdo. “Vai, Carlos! ser gauche na vida”.

- Meu caro espectador, o ingresso é caro, mas nem por isso vou deixar de cobrar de você. Afinal, foi você quem escolheu estar aqui; caso não seja seu caso, tanto pior e ainda mais se foi você quem pagou. Mas a vida de artista não é fácil, mesmo sem ser você há de convir se apenas um pouco pensar. É fácil não ter o que fazer? É fácil buscar uma voz para se expressar, mesmo que não saia de você e no entanto represente tudo que você lá dentro diz a si mesmo sem conseguir escutar, só sentir? Você entrou aqui trazido por suas próprias pernas, o que cria a chamada demanda nas suas regras de oferta e preço, portanto agora quem está no controle sou eu. Como em combates aéreos clássicos da Primeira Grande Guerra, pilotei meu avião até mais alto acima de você, eu sob ataque, até que enquanto me mantinha ainda firme em subida, você se curvou e cedeu. Nesse momento eu inverti o loop, e agora seu motor está desligado e você, em queda livre. Meu caro espectador, o ingresso é caro mas vou exigir de você. Saia da zona de conforto onde toda sua falta de atitude é muito bem justificada pelos gastos em dinheiro. Você compra o mundo para não fazer nada? Pois bem, tranquem as portas! Só sairão daqui depois de pensar e refletir muito!

O orador salta suavemente enquanto termina a frase, agarra precisa e firmemente uma das cordas e aterrissa no chão com o pé esquerdo. Luzes brancas e fortes acendem ruidosamente contra a plateia, ao mesmo tempo que uma cortina de veludo cotelê no fundo do palco despenca até o solo, revelando por trás de si um gigantesco espelho de moldura rococó. O espelho reflete absolutamente todas as pessoas, de todos os ângulos. O barulho das portas ao fundo da plateia sendo trancadas beira o claustrofóbico.

- Meu caro espectador, o ingresso é caro, então peço-lhe que confie no que vou lhe confiar em segredo, sob pena de, em se deixando de ser segredo, transformar-se em traição. Primeiro de tudo, que tal a sensação da luz forte lhe cegando os olhos inadvertidamente? Quando foi comigo ele se divertiu!

Orador aponta para um tipo na plateia e pergunta, olhando o tipo nos olhos enquanto aponta para outras pessoas e passeia pelo corredor de acesso às poltronas:

- E eles, riram de mim? E agora, vai dedurá-los, retratar-se comigo ou juntar-se a eles? Meu caro espectador, o ingresso é caro, e a pergunta é retórica. A porta está trancada e você não pode evitar de refletir. E todos podem ver o que reflete. Assim, vestidos e refletidos, ternos e vestidos são tanto quanto nada. Estão todos nus perante os demais, despidos, desprovidos de proteção, enquanto o único vestido sou eu!

Em um gesto seco, rápido e preciso como uma navalha, puxa sua roupa violentamente para frente. Ela cai, o orador está nu.

- Meu caro espectador, o ingresso é caro, mas você não veio aqui para menos do que vou impor. Exijo sua abstração, exijo total soltura das suas funções psicológicas, exijo que se entregue. Exijo atenção. Ouça com atenção em vez de apenas escutar. Em vez de ficar só olhando, me veja. Solte a direção de arte da história cujo roteiro sou eu quem vai contar. Meu espectador ilustre, não precisa criar, ilustre. Eu exijo sua abstração. Não tem cenário que não possa existir, simplesmente porque aqui não há nenhum. Aprendam a se sentir confortáveis com toda essa exposição, eu lhes garanto, se todos podem se olhar, ninguém vai lembrar que se viu.

As luzes diminuem. O orador retorna ao palco e puxa outra corda. Jatos de água caem do alto formando palavras:

VOCÊ ESTÁ
PRESTANDO
ATENÇÃO?

A hidrotecnia dura cerca de 13 segundos, tempo suficiente para o orador se vestir com uma calça preta de zíper prata e malha-de-lã teia-de-aranha cor-de-abelha. Caminha descalço com um par de coturnos pretos nas mãos em direção ao banquinho, sobre o qual senta. Tira de dentro do coturno esquerdo um pé de meia preta e começa a vestir no pé esquerdo lentamente, olhando para o nada, como que refletindo sobre as próximas palavras. Pega a meia direita, faz que não com a cabeça, larga a meia e calça o coturno esquerdo enquanto começa a falar:

- Caro espectador, o ingresso é caro, e por isso exijo sua abstração. Agentes secretos se infiltram na vida de uma mulher. São dois. Um deles já está infiltrado dentro da vida do outro, ou seja, dois níveis pra quem sabe da Origem. O primeiro agente se infiltra como agente mesmo na vida do segundo. Ambos se infiltram na vida da mulher: o mais belo como faxineiro do prédio, o mais rico como pretendente.

A essa altura, o orador deixa de lado o pé direito do coturno e põe-se a manquitolar de um lado para o outro do palco rápida e freneticamente.

- O pretendente e a mulher estão em um encontro na casa dela quando aparece, tarde da noite, o bonitão da limpeza. O que ambos querem? Acima disso, quem são eles? Quem é ela? Quem são eles pra ela? Quem está encenando?Já pedi antes que confiassem em mim, e afinal não têm escolha. Vou precisar que se mantenham calmos, quietos e extremamente concentrados em 3, 2, 1...

[Todas as luzes se apagam, novamente com ruído. Passam 3 minutos assim, até que o spot vertical se acenda novamente sobre o banquinho. Agora o orador está sentado com a cabeça apoiada sobre o punho, mimeticamente análogo ao famoso pensador de bronze. Calça apenas o coturno direito, sem calça ou nada mais. Cabelo e barba raspados bem rente. Início Segundo Ato.]

A voz do orador soa, mas sua cabeça e maxilar estão imóveis.

- A soma das unidades desse parágrafo é 13, não perca seu tempo contando, já adianto que não adianta. Prostitutas invadem um veículo e obrigam a dirigir em direção a uma tal mansão. Quando um semáforo fecha, uma necessidade incontrolável de estacionar. Uma irmã surge e conduz sorridente para dentro de uma casa imensa, um loft gigante que poderia ser uma fábrica de automóveis. Primeiro uma pergunta sobre um piso de tábuas corridas bem lindas e longas, que é belo e caro. Depois ao videogame ultrarrealista com um jogo de boxe controlado por sensores de movimento. Ao primeiro soco recebido, prazer. Ao primeiro proferido e acertado, um buraco no estômago. Está tudo bem? Não! Corram daqui, busquem aqueles que se importam, busquem aqueles com quem se importam, vão, busquem o seu amor, já é hora. Vão, ou será tarde demais e será tudo em vão, vão logo antes que as oportunidades se fechem e não sobre um vão, vão! Peçam à terceira pessoa para quem contarem que venham até aqui. Peçam à terceira pessoa que vejam essa peça!

Surge magicamente um Kadet Turim automático 1990 sobre o palco, em cujo banco do motorista o orador já se encontra. A frente do carro está voltada para a esquerda do palco. O orador encerra:

- 1990, e ainda ele ainda está fazendo um grande trabalho!

Pisa fundo no acelerador, mas o câmbio está no N, de forma que só aumenta o ronco do motor. Uma câmera bem sobre o câmbio capta a imagem da alavanca, que é projetada sobre uma tela que ocupa o lugar onde ficava o gigantesco espelho de antes.

- São de 1990, e eles já estão fazendo um grande trabalho.

Na projeção, percebe-se a mão do orador puxando a alavanca até o D. Ele faz um sinal da cruz todo errado e ora:

- Affe, Maria, chega de graça. O senhor é tão lindo! Meu caro espectador, o ingresso é caro e você já perdeu tempo demais!

Nisso, acelera com força, os pneus cantam e o automóvel se move velozmente para a coxia, deixando para trás um rastro de fumaça. Em 13 segundos, ouve-se um violento barulho de acidente, todas as luzes se acendem, as portas do fundo são abertas e o orador está no saguão para receber os cumprimentos.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

MAIS NUNCA É O SUFICIENTE

Agentes do governo surgem do lado de fora. Os ouriços no dos muros não resistirão mais que alguns instantes, pois alguns cobertores de mendigo dão, facilmente, conta do recado.

O altofalante na parede, assim como o terceiro monitor ao seu lado, não tem botão I/O. Uma coisa bem Orwell, e começa a funcionar. Vinte e sete anos se passaram, de forma que não se contesta mais a qualidade da imagem e do áudio, mas em tese nem o conteúdo do que se vê ou ouve, e isso persiste desde aquele então de um futuro previsto e que já é passado há tempos.

Mas assim como o futuro daquele passado cedia espaço a insurgentes, este presente o faz com mais armas e mais premonição. O segundo monitor é onde a mágica acontece, mas no primeiro é onde reside toda a fidelidade do que se vê, e de onde sai o som daquilo que se precisa ouvir. Máquinas enormes dão lugar a imensos emaranhados de fio para carregar nossas internets móveis.

A capa de um documento no monitor 1 anuncia em graves letras serifadas a troca de um ministro na área rural. A vista da janela denota que não há mais muito tempo para resistir. Além disso, denota que estamos na área rural, logo chances há de que seja aqui o alvo da queda.

Cercas de arame lutam contra fibras, luvas e borrachas, resistindo bravamente à investida por quanto tempo conseguem, considerando que há muito vivem de sol, capim e da chuva que cai quando as pessoas sensíveis do andar de cima decidem lembrar suas razões de ser.

O presidente desce as escadas, e se desse a menor pinta de que soubesse o que fazer, seguiríamos suas ordens. No entanto, a pinta que pinta é daquelas que até mesmo um açougueiro classificaria como alvo a ser eliminado. Bem, cirurgia é a única saída. Uma lenta investida com os dentes de uma serra tico-tico cega dão conta do procedimento. Salvamos a pinta, e nos livramos do mal que esse presidente representava como ameaça à sua existência.

A vantagem de dar uma boa pinta é que sempre impressiona. Nesse caso, bastava lançar mão dela para que dissessem “bem, este sujeito está com pinta de presidente” – o que seria sempre verdade.

Mas como isso pode ajudar no plano? Aliás, que plano?

Primeiro, como toda boa estratégia, é preciso mapear o terreno. Só depois definir os objetivos, e então as metas, táticas e medidas de sucesso.

1] O terreno é retangular, sem grandes aclives ou declives. Quem fica na parte baixa tem a vantagem da proximidade em relação à porta de entrada e saída, e trabalha com o pouco acidentado relevo ainda assim a seu favor. Correntes delimitam a área de atuação. É impossível determinar se falamos de uma fazenda ou de uma rua – o pavimento ao redor não parece levar a muito longe, e o gramado está mais para capim. O concreto das hastes não racha, mas elas em si rangem.

2] O objetivo é chegar na cúpula do abat-jour que acende com um simples toque de pele, antes que o abat-jour automático se acenda, para então forçar uma reunião às cegas.

3] A meta é encontrar as pintas simétricas que marcam o lugar certo, bem entre elas – nem mais para lá, nem para cá. Para isso, precisamos de tempo porque afinal, mais nunca é o suficiente.

4] Toda a tática se baseia no uso de um relógio suísso sem corda e atrasado. Demos a nós e ao tempo o benefício da dúvida, e a chance de estarmos errados mais que certos. Isso vai gerar bastante confusão.

5] Sucesso seria receber a medalha invisível de honra ao mérito pelas mãos grandes da dura, macia, enorme e rude justiça.

É chegada a hora. A rádio-chamada é feita sem aviso prévio. Um último olhar pela janela antes de calçar o coturno e encaixar a mochila nas costas. Ao sentir seu peso, no entanto, fica evidente que só é possível andar com ela para trás, o que leva à inegável lógica que vestindo-a na pose marsupial há mais chances de evoluir. Nessa última olhada, percebo que o teto do campo de batalha é mais uma vez vagabundo, feito do mais vagabundo plástico de cortina de chuveiro. Tanto pior para mim, que não me contento com menos que um box decente e espaçoso.

Feito.

O peso de duas vidas na região abdominal é o que faz do canguru o que é. Essa sensação não passa despercebida. É pesadamente suportável, na tênue linha que divide a capacidade da mera e simples desistência. Me sinto gravemente grávido. A forte chuva que cai sobre nossas cabeças denota minha razão ao ter desconfiado e renegado a capacidade da cobertura.

Após uma breve discussão que parece inútil, pois os convivas podem sem piedade ser sentenciados menos inteligentes que o necessário, dar as costas é tarefa fácil perto do esforço que era dar ouvidos.

Já distantes cerca de 13 passos, esses ouvidos escutam uma última reclamação sobre a falta inadmissível e substancial de um redator. O dedo indicador H aponta para o céu, e o G aponta para a cabeça, de cima para baixo. A chuva cai incessante, porque novamente, mais nunca é o suficiente.

Martelo com a mão o relógio de metal a fim de encaixar os elos da pulseira antes de botá-lo para funcionar.

Ao chegar na fachada do velho edifício novo, um toldo se projeta bastante nova-iorquino, e o rapaz na porta é cortês como não haveria de ser para todos, estende uma mão dura, macia, enorme e rude. Seu pin de identificação diz Lauro.

Muito simpático, ou talvez apenas com empatia natural, sugere que suba. Diz que as vantagens de morar nesse edifício vão além do nome de outrora, mas passam por cuidados que podem ser deixados de lado sem deixar a vida passar em vão. Nesse lugar a vantagem é que aquilo que se realmente deseja lhe vai aguardar, mesmo que à primeira vista não agrade – o que, segundo Lauro, não é o que vai acontecer.

- Assine aqui – insiste.

- Para quê?

- Sua medalha de honra ao mérito. Ela é dada a quem faz por merecer.

Por hoje é apenas uma, mas lustre-a todos os dias e será eterna, como um bom mérito deve ser. Afinal, mais nunca é o suficiente.

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domingo, 23 de outubro de 2011

DE CABEÇA NA METAMORFOSE

Uma banheira. Um cobertor. Uma penteadeira. Um vidro de lustrapatas. Um livro contábil. Um par de sandálias. Uma canga. Um binóculo. Duas torneiras de bronze.

Um singelo pássaro a observar.

Acordo como se fosse uma vítima do sádico sanguinolento que fala por intermédio de um terrível boneco ventríloquo e um gravador, mas sem a parte do “olá, quero jogar um jogo”. Mas pelo nome do filme, faz muito sentido tentar organizar as peças desse quebra-cabeças. A trilha perfeita toca no ar, jamais deixaria passarem despercebidos Mick e os slides de Keith. Mas cansei de esperar pacientemente.

A banheira fica no canto de um banheiro claro e limpo, e poderia ser aquela descartada na reforma, se não fosse outra. Apesar de que olhando por dentro, são bem parecidas. No entanto, pelos perfeitos alinhamentos horizontal e vertical em relação ao lustre no teto, percebo que não está no canto, mas no centro. Pela mobilidade, deve se tratar de uma banheira vitoriana.

Até agora só olhei para as coisas e o pássaro, sem olhar para mim. Preciso encontrar meu binóculo. É incrível como nos sonhos a realidade pode ou não se repetir a seu bel prazer; nesse caso se repetiu, foi como quando procuramos a chave que seguramos com as próprias mãos – o binóculos estava já em frente aos meus olhos durante todo o tempo.

Desviei das lentes e me dei conta que tudo parecia como o mundo 4. Maldição, estive olhando pelas lentes do binóculo ao contrário, e em vez de ver as coisas maiores e mais próximas, as via menores e mais distantes. A banheira era imensa, assim como todo o resto. Até o pássaro, apesar de não ser monstruoso, parecia agora bem maior que esperaria. Parece do meu tamanho!

Começo a andar buscando sair da banheira. Assim que começo a subir, começo a descer. Começo a subir, começo a descer. “Maldição”, penso, “esse é um daqueles sonhos de impotência”. A sensação de escorregar pelas lisas paredes da banheira não é ruim. No entanto, depois de umas treze tentativas perde a graça.

“O vidro de lustrapatas”, exclamo. Mas é claro, quem quer que tenha me jogado nesse mundo gigante, deve ter lustrado minhas patas enquanto dormia, evitando assim que saísse.

A passarinha mia e se lambe do alto, empoleirada na borda da banheira. Ela mia perguntando se não teria eu me dado conta de que se tenho patas, humano não sou. Ela diz ainda que nos parecemos mais do que posso imaginar. Seria eu como ela? Seria ela como eu? Espelho, espelho meu...

- Levante os braços.

- Você está armada?

- Vamos lá, pareço estar?

- Não, mas gostaria de ouvir de você.

- Levante e digo o que quiser ouvir.

Levantei os braços que eram asas, bati e voei para fora da banheira aliviado. Sem dizer palavra, nos direcionamos cada um para umas das torneiras de bronze reluzentes, agarramos suas antigas e belas hastes com as patas lustradas, fizemos força e dançamos tão graciosos como pássaros devem parecer.

Tudo nesses momentos é mais rápido e menos racional e menos psicológico, por uma de duas razões, ou um mix de ambas. Pode ser porque animais sabem instintivamente o que devem fazer, ou apenas porque tinha que ser. Não sei o que pensar, só o que dizer - ou vice-versa?

As torneiras começam a encher de água o banheiro, e por isso a banheira estava deslocada. Estivesse no canto, todo o líquido cairia em seu interior, e posteriormente pelo ralo, visto que não tenho uma tampa. E por isso a banheira não era a da reforma, senão seria fixa. O universo faz sentido, afinal!

O livro contábil é o primeiro a se encharcar. A sensação é boa, quem quer saber de conta é gente, e hoje somos pássaros livres para voar. A contabilidade é assunto para outro andar de outro prédio, ares rarefeitos que não quero respirar. Não quero ossos pneumáticos para me preocupar com esse tipo de pequenice.

Voamos para a penteadeira para dar um último tapa no visual. Somos bem parecidos. Pelo tom de vermelho, somos dois Tiê-sangue. Isso, Watson, pode nos levar a mais uma inferência, a de que estamos na costa sul do litoral norte, se considerar o piso de madeira e o silêncio faz ainda mais sentido.

Pegamos com as patas e despejamos dentro da banheira as sandálias e a canga. Enrolamos rapidamente o cobertor nas patas também de bronze da banheira, evitando que seu deslizar risque o piso. A água já está a ponto de nos fazer mover.

Assim que a banheira se transforma na embarcação rumo ao ansiado desconhecido, empoleiramos na sua borda e descemos escadas e corredeiras sem muito esforço, uma vez que a água é tranquila tanto quanto límpida.

Após não muito, chegamos à entrada de onde se serve o melhor Filet au Poivre pé na areia de que se tem notícia, saltamos voando para a grande grade de madeira em sua varanda. Peça que o interior seja vermelho como nossos peitos e a satisfação é garantida.

Mas ainda não é hora de regozijar, vamos até o fim. Seguindo o fluxo da água, nossas patas se transformam em pés e vamos crescendo à medida que a fórmula areia + água nos atinge. As penas não caem, mas desaparecem, e me vejo quase humano novamente. Ando uma rua até que toda a metamorfose esteja completa, desembocando em um píer desgastado na medida certa, dando acesso a uma praia completamente vazia, onde só descansam o sol, a areia, as ondas, uma canga e um par de sandálias.

Tenho pela primeira vez a real sensação de que um desagradável aniversário está chegando. Aniversários são a maldição da existência. Todo mundo faz. Todo mundo. Todo ano. Todo mundo que eu conheço faz. As únicas pessoas que conheço que pararam de fazer aniversário, estão mortas. Então para quê os parabéns? Acho que preferia um dia depois, o que me incomoda é o fato de passar o ano todo nessa expectativa.

Afinal, jamais pude dizer “bem, quanto a isso tô tranquilo, pelo menos aniversário esse ano eu já fiz”. Não, eu sempre tenho que deixar tudo para a última hora.

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sábado, 22 de outubro de 2011

CARTA PARA JULIÈTTE

CURIOSO

Oi.

Em mais uma dessas minhas frequentes idas à Argentina resolvi caminhar do Aeroparque até o hotel. Pé ante pé nas calçadas, me dei conta de que havia algo de diferente no ar. E quando na capital federal, é de se esperar que sejam bons ares. Ahn?! ;)

Comecei a perceber quando em uma curva comecei a descer. Você já esteve lá, parece a curva à direita de quem desce a Brigadeiro e vai para a Vinte e Três, bem ali embaixo da varanda do Lions Club, saca? Então, é íngreme, e essa cidade deveria ser plana, não? E além disso, Luiz Antônio tem alguma relevância para esse povo? Creio que não. Curioso...

Percebi que o mesmo tipo de corrente do centro de São Paulo afunilava a calçada, de maneira que pé ante pé virou gente ante gente, e não havia como ultrapassar. Como sempre, tentei chegar um dia antes para não me importar com esse tipo de problema. Para deixar o tempo passar, resolvi então entrar no restaurante onde como sempre.

Mas antes de entrar ainda haviam alguns metros ao longo dos quais mais coisas curiosas decidiram acontecer.

ESTOU MUITO CURIOSO

Acho que você, aqui, também estaria. Pela rua não passavam carros, mas uma infinidade de bicicletas velozes e reluzentes. Todos olhavam para os ciclistas e os aplaudiam. Percebi que o aperto da calçada era para evitar que uma pessoa ficasse na frente da outra, impedindo a visão a que todos devem ter direito. É tão bonito vê-los passar, e se não fosse a Tour de France que estavivesse acontecendo, teria certeza de que era o grupo de corrida que vejo pela varanda passar todos os domingos a quatro andares de distância.

É uma verdadeira festa, preciso admitir. Gostei de fazer parte, mas estou muito curioso com qual fato político teria feito com que a Tour de France se mudasse para essa Buenos Aires travestida de São Paulo. Seria isso fruto da já não tão falada Globalização, ou Mundialização – termo mais humano preferido pelos franceses – latinos – em oposição aos mais técnicos saxônicos / anglicanos? Ou será que ela é apenas mais longa que imaginei e passou sempre por aqui? O que acha?

Assim que todos os participantes passaram, voltei o olhar para a direita, que era a direção do restaurante para onde ia. Avistei carregadores de piano carregando um piano velho e lindo, celestial. As marcas de uso em instrumentos musicais são como mãos e cantos de olhos envelhecidos – alguns vêem como padrão de depreciação, enquanto outros [grupo do qual faço parte] consideram aquilo a beleza, a história de cada instrumento que deixou de ser um pedaço de madeira para ser uma alma. As marcas são a materialização do potencial, afinal um piano não é nada. Um piano é a música que sai dele. O que acha?

Os carregadores do piano parecem músicos experientes, dado o cuidado realmente de enfermeiros que têm com o instrumento. Uma mulher que emana azul é a próxima da fila na calçada. Quando chegaram os três à porta do restaurante, o piano foi colocado no chão. Eu, que distava ainda umas 15 pessoas, não me irritei como elas. Creio que tivessem hora para chegar, enquanto eu apenas vagava.

A mulher que emanava azul colocou seus dedos de anéis sobre as teclas pretas, e tocou uma melodia linda e melancólica quase que praticamente toda sobre sustenidos e bemóis. Reconheci a canção, e talvez você um dia a reconheça se ouvir pela segunda vez ou décima terceira. Não é famosa ainda, nem nunca será. Enquanto tocava, as pessoas na minha frente deixaram baixar a guarda e pararam de buzinar para aproveitar o momento peculiar e doce.

Assim que terminou, a mulher entrou no restaurante. As quinze pessoas andaram até que eu pudesse alcançar a maçaneta e entrar também. A mulher era você, e o restaurante era um brechó. Você não pareceu me reconhecer, no entanto não me ignorou, pelo contrário. Me ofereceu com um gesto o sofá de madeira escura e veludo vermelho defronte ao provador. Era um brechó de muito bom gosto, de muito estilo, uma versão melhorada do À La Garçonne, tão melhorada quanto um cartão de crédito normal que da noite para o dia adquire um novo limite de um bilhão e sessenta milhões de Reais. Ou de Euros, falando em França. Nunca de pesos, apesar da Argentina.

Desfilou por entre as araras, perguntou “que roupa eu ponho”, escolheu algumas peças, se encaminhou ao provador com cortina de veludo alemão combinando com o sofá, afastou de um lado apenas o suficiente para entrar, virou-se para mim, piscou com cílios de boneca de pano, fechou e de dentro disse “se ficar aí sentado, adeus; caso contrário, nos vemos”.

SOU MUITO CURIOSO

Você sabe muito bem disso. Que boa charada! Mesmo antes de decifrar, já sei que adeus não me apraz, portanto levanto e retomo em direção ao hotel. Sou muito curioso para não pensar nisso durante todo o caminho, o que faz o percurso parecer muito mais curto do que na realidade de um sonho seria.

O hotel era pequeno e elegante, tinha um quê de flat. Na extensão do lobby, um piano bar. Quem estava lá? Quem? Sim, ele, o piano velho. Uma dona Josefina escrevia em um envelope e fincou a caneta tinteiro na madeira do velho piano com realmente mais força do que aqueles velhos braços pareciam ter. Uma dona Lydia riu desgraçadamente como se o som viesse do além. Fiz uma digressão rápida ao perceber o estado esburacado do piano. Diferente das costas de uma guitarra com forma de cintura de mulher, em cujo verso a fivela de caveira do cinto esfrega com vigor, desgastando a pintura de uma maneira sexy e definitiva, esse piano parece maltratado pelas razões erradas. Ele está assim pela quantidade de cheques e guias de cartões que devem ter sido assinadas naquele lugar, e até mesmo as comandas dos hóspedes solitários que passaram noites ali a se embriagar. Pobre piano, suas marcas de tempo não denotam um potencial atingido, mas o contrário.

Sou muito curioso e decidi perguntar a ele próprio, o piano, como se sentia em relação a isso. Ele me respondeu que apenas uma vez fora tocado bela mas brevemente, então não tinha certeza se foi feito mesmo para isso, ou se havia cumprido um bom papel como alvo da ira de canetas descontroladas e autoritárias, pois estas regem as transações monetárias que mantêm tudo ali funcionando. Me entristeci e olhei para ele com muito pesar. Disse que esse fardo é pesado, muito mais pesado que ele, mesmo apesar de um piano não ser leve. Mas seu potencial é leve e puro e pleno e belo. Pedi que não desistisse, que um piano não é um piano, mas seu potencial. Ele com o olhar consentiu, mas disse que esse fardo era dele, que não me preocupasse e subisse direto ao meu quarto. O que acha?

Subi apenas um lance de escada e logo abri a porta, e o fato daqui por diante você já sabe, mas não como eu vi. Todo o chão do meu quarto era coberto por uma grama verde recém aparada. O céu era azul e cinza, e emanava um tom de bronze celestial. Você falava ao telefone e sorriu ao me ver, fez um gesto com a mão e apontou o balcão da cozinha. Havia nele um papel e uma caneta fincada. Fui em direção a ele e percebi que era o piano. Sentei e reproduzi nas teclas pretas a melodia de antes. Fiquei feliz ao pensar que havia desvendado toda a charada, mas quando me virei, você não estava mais lá, só a grama e o cheiro no ar. Não era mal, no entanto.

Resolvi então olhar no papel, havia algo escrito com a minha letra. Uma conjugação do verbo ligar no tempo presente, acrescido de uns detalhes.

Quem liga?
Eu ligo
Tu ligas
Ele liga
Nós ligamos
Vós ligais
Eles ligam
Quem não liga?

Eu sou muito curioso demais para não me concentrar na resolução dessa charada, mas acabei acordando. O que acha?

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